quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Resurrection Fest 2012 04/08/2012 - Resurrection Field - Viveiro, Espanha

    Para o leitor ou internauta que acompanhas nossas aventuras pelo velho continente, sabe que este ano, por motivos de saúde, foi impossível nossa presença no Hellfest. Para compensar optamos pelo Resurrection Fest, um festival que vem crescendo a cada ano e em sua sexta edição apresentou um cartaz que, no mínimo, podemos chamar de histórico. O festival que é realizado em Viveiro, uma cidadezinha galega, onde o verão parece passar distante já que pelas noites o casaco se torna necessário para suportar um fresco doze graus de temperatura.


Vale lembrar que, o festival surgiu no ano de 2006 quando os jovens locais tentaram encaixar dentro da programação das festas de Viveiro um show do Sick of it All. Ideia esta que foi apoiada pelo prefeito e que se chamaria Viveiro Summer Fest. Dois dias antes do show, que seria gratuito, os nova iorquinos cancelaram por doença de um dos integrantes. Muitas criticas e frustração foram ouvidas e sentidas, muita gente até achou que tudo não passara de um grande boato. Tudo isso serviu de combustivel para que meses mais tarde, num recinto fechado, surgisse a primeira edição do festival com os mesmos Sick of it All e Walls of Jericho. Isso mesmo, o Resurrection teve em sua primeira edição duas bandas gringas e alguma local como abertura. Devido ao sucesso as edições foram crescendo e por estes passados 6 anos bandas como Down, Pennywise, Misfitis, Napalm Death, Bring Me The Horizon e muitos outros marcaram presença em Viveiro. Destacando a melhor combinação qualidade preço com relação a outros festivais de verão na Europa, apenas 55 Euros num total de 64 apresentações. O que também chama atenção é a quantidade de jovens que vão subindo ao trem ao longo do trajeto que te leva até Viveiro. Sim, um trecho da viagem tem que ser feito de trem, destes que passam por estreitas pontes em meio de vales de natureza quase virgem, alguns com somente algumas vacas no pasto. A cada estação, subia uma dezena de jovens que tem o Resurrection como única salvação para realizar seus sonhos de assistir suas bandas favoritas, afinal, que grupo tocaria numa cidade com apenas 2 ou 3 mil habitantes?

  Após uma viagem que parecia eterna chegamos ao Resu! como é intimamente chamado por aqui. Tudo bem básico mas o suficiente para não se complicar. O evento é montado em um campo de futebol, em um lado (onde fica uma das balizas) o palco Monster. No outro uma lona de boa capacidade com o Palco da Jagermeister, além de um pequeno palco a Arnette para apresentações acústicas de algumas bandas e outras tantas de bandas pequenas. Fora das quatro linhas uma gigante lona com o merchandising, banheiros, restaurantes, área vip, caixa electrônico, pista de skate e bares. Um total de 42.000 metros quadrados de alegria.


Para abrir a festa tivemos os espanhóis do Moksha no Monster Stage seguidos do postmetal espanhol do Adrift e Another Day Will Come. Todas com a difícil missão de tocar na primeira hora e agradar a um publico pequeno. Com relação ao som da bandas nada que reclamar, poderiam tranquilamente estar em horários de maior publico mas alguém tem que inaugurar a festa. 
Pouco depois e também no Monster, os portugueses do More Than a Thousand deram as caras. Fazem parte deste novo metalcore ao estilo August Burns Red, The Ghost Inside, etc. Tecnicamente um bom show e para um publico maior, o que não dá para entender é a comunicação em inglês já que o idioma local, o galego, é muito parecido junto ao excesso de "motherfuckers" na comunicação que mais parecia Evan do Biohazard que outra coisa. A única diferença é que Evan é "rato" do Brooklyn. Por mencionar Nova Iorque conferimos no Jagermeister o provenientes desta cidade This is Hell. Outro show brutal desta banda que visita a Espanha com certa frequência mas que não cansamos de assisti-la. Levantaram público e a primeira nuvem de poeira local com músicas de seu mais recente álbum, o Black Mass. Destaque total para o guitarrista Rick Jimenez, que desde os primeiros acordes de "Acid Rain" não para de saltar, verdadeiro pés de mola. Show curto e intenso, apenas meia hora.


 Para a mesma quantidade de minutos e no palco maior se apresentou o Strenght Approach e demonstrou o porque está na estrada há 16 anos com um hardcore solido. De volta a lona empoeirada foi a vez do Converge e apesar da apresentação ter um setlist diferente do que vimos no Hellfest do ano passado, a impressão continuou a mesma, que a banda não repete ao vivo o que se escuta no disco. A apresentação é excelente e a performance de Jacob Bannon (vocal) é única, mais parece um Golum, aquele personagem do filme Senhor dos Anéis. Desta vez abriram o set com "Jane Doe" e seus onze arrastados minutos. Neste tempo, Jacob deu um show à parte, interpretação corporal acima de tudo. Desceu ao público, deu trabalho aos seguranças, se babou durante o ato. Quando digo que a banda não repete o estúdio não quer dizer que o show seja ruim mas que aqueles berros não se repetem e que todos os vocais são guturais, que ao final de 40 minutos só diferimos as canções por seus riffs e não por refrão como muitos esperavam. Após a já citada abertura a demolição ficou por conta de "Dark Horses" e ver a banda executar este tema junto ao baixista que parece estar sendo eletrocutado a meio metro de distancia dos olhos é para não esquecer. Quando tocaram "Axe to Fall" foi como perde-los de vista na nuvem de poeira, as melecas ficam negras em segundos. Também merece destaque "Heartache" do disco No Heroes, para mim, um dos melhores do gênero.

Para baixar um pouco a poeira dar um clima de verão o Reel Big Fish entra em seguida com suas camisas floridas, óculos coloridos o saxofonisa moicano fazendo a festa. Outro extremo se lembrarmos que estávamos no Converge. "The Kids Don't Like it" e "Everything Suck" foram as mais celebradas.

 As 21:40 entrou no palco mais uma banda considerada o novo fenómeno do estilo screamo e porque não uma referencia no estilo com somente dois discos lançados. Pianos Become The Teeth é mais uma banda que faz de sua performance no palco um grande ato e não decepcionaram o bom publico que compareceu para aprecia-los. De volta ao ar livre foi a vez de receber Set Your Goals e seu som pop punk. Com toda sinceridade, é um estilo que não consigo gostar. Aquelas vozes de menininho de escola, o vocalista fazendo o coraçãozinho com as mãos como um jogador de futebol ou um funkeiro ou mesmo sei la o que foi de ter a necessidade de correr antes da hora ao palco poeira para conferir o brutal show do Nasum. Apesar de ser um grande fã do Agnostic Front que viria na sequência, elegi no momento que subiram ao palco como o show do dia, o melhor. Sólido, potente, gritado e tecnicamente sujo, foi o que apresentaram os suecos que após vinte anos de estrada se despedem da mesma, não sabemos se para sempre ou apenas um hiato mas a grande verdade é que para muitos esta foi a última oportunidade de vê-los demolindo um palco e a trilha sonora deste ato teve como responsáveis principais músicas como "Masshypnosis" e "Bulshit" entre a uma dezena mais do setlist.
Saindo de uma baliza para outra era visível o bandeirão do Agnostic Front ao fundo do Palco. Emoção à parte tenho que ser realista. Foi a primeira vez que vejo o AF num palco grande de festival e de cara digo que o melhor é tê-los em palcos pequenos. Muito mais intensos e próximo ao publico do que foi neste primeiro dia de Resurrection. Por momentos senti o publico distante da banda como não tinha visto nas diversas ocasiões que assisti aos nova iorquinos mas isso foi apenas um detalhe.

O disco é novo mas a abertura ficou por conta de "Eliminator" após a entrada triunfal de Stigma, uma atracão à parte. Do novo veio a música titulo entre as primeiras da noite, "My Life My Way". Claro que os clássicos como "Friend or Foe" e "Your Mistake" marcaram presença e novos hinos como "For My Family" foram celebrados à altura. Ponto alto da noite ficou por conta da participação de Pirri da banda Escuela de Odio nos vocais de "Police State". O que realmente não deu para entender foi o cover dos Ramones, "Blitzkrieg Bop", num show curto em que o Agnostic Front tem discos e repertório de sobra para apresentar, deixando de fora um clássico como "Anthem", por exemplo. 

Para fechar a noite mais uma banda da capital mundial, H2O. Está aí um grupo que realmente sentia saudades, a última vez que assisti a banda ao vivo foi há mais de dez anos e garanto, o tempo parece não passar para Toby Morse, nosso frontman em questão parece mesmo se cuidar como manda quem utiliza um X na mão. Abrindo a apresentação com "1995" e "Nothing to Prove" e não deixando de lado temas como "One Life, One Chance", "Still Here", "Everready" e "Guilty By Association" com a participação de membros do Strenght Approach e fechando com "Friends Like You" do recente álbum de covers, este em especial pertencente ao Sick of It All e "What Happened?". Apesar de curto uma boa seleção de músicas para fechar o primeiro dia de festival.

 No segundo dia, o cansaço já começava a bater forte e deixamos passar as primeiras bandas. Tampouco chegamos no fim da festa, num horário intermediário conferimos de perto MxPx Allstars. Particularmente não sou um grande fã da banda mas tenho que reconhecer que fizeram um grande show. Quem chegou relativamente cedo pôde curtir músicas como "Punk Rock Girl" e "Aces Up" além da participação de Steph, guitarrista do Descendents, na música "Far Away".

  Na primeira visita à lona empoeirada Jagermeinster, aliás, não me refiro a este palco como ruim, vale deixar claro que era de bom tamanho e acústica só que...Bem, continuando. Ali tocou Proud 'Z, banda de Madrid e bastante conhecida na cena hardcore nacional e que não deixou pedra sobre pedra. Já os americanos do Unearth foram a primeira visita metal do dia. Boa banda por sinal com seu metalcore feito a base de guitarras de sete cordas e baixo de cinco. Apesar do bom show e músicas como "Endless" e "My Will be Done" e seus breakdowns fica a mesma sensação do More Than A Thousand do dia anterior quando o vocalista não sabia se fazia pose de gatinho ou de bad boy falando motherfuckers a cada dois por três. Desta vez o personagem foi o guitarrista que mandava beijinhos e piscava um olho para o público enquanto ao fundo o som era demolidor, algo não encaixava.
O mesmo não posso dizer o Suicide Silence que roubou a cena, pelo menos até o momento com uma apresentação de tirar o fôlego. Mesmo com a lesão de um dos guitarristas na primeira música do set, "Wake Up" de No Time To Bleed, na verdade uma torção de joelho após um movimento brusco somado a seu peso (categoria pesado) a banda não tirou o pé do acelerador e atacaram com "Slaves to Substance". E o guitarrista lesionado? nada que uma dose de vodka oferecida pelo próprio vocalista ainda no palco e uma cadeira improvisada numa caixa o impedisse de finalizar a apresentação e seguir em turnê com direito a visita ao Wacken que rolou no mesmo fim de semana. O vocalista multi-tatuado Mitch Lucker regeu o público com maestria.
Curiosidade seria a palavra exata para resumir o que todos sentíamos antes do Against Me! Afinal, estaríamos diante de Tom Gabel ou Laura Jane Grace? Sim, Gabel que durante anos liderou a banda como homem, anunciou recentemente que mudaria de sexo. O que parecia uma piada ou mesmo a necessidade de incorporar o personagem do conceitual disco que vem sendo composto sobre uma prostituta transexual é na verdade uma grande realidade. Quem vimos diante do publico era finalmente uma mistura que poderíamos chamar de Laura Gabel, já que a transformação ainda não está completa e a voz continua a mesma. Abrindo com "True Trans Soul Rebel" e "Cliché Guevara" levantou o público com a aguardada "I Was a Teenage Anarchist", um verdadeiro hino para muitos e que deixa de lado qualquer que seja a opção sexual, seja de quem seja. Bom show. 
O festival ofereceu com Municipal Waste, assim como Angelus Apatrida que comentarmos mais adiante, não só mais uma banda de metal mas uma banda que trás um revival do thrash metal 80's. Não só a aparência de seus membros mas também no inconfundivel som que tanto marcou aquela década com bandas como Exodus. O público virou muito com porradas como "Unleash the Bastards" e headbangueou com "Beer Pressure". Por um momento já não sabiamos o que era fumaça de palco ou "fumaça" dos pés, público totalmente entregue.

  Os batidos Sociedad Alkoholika também atraiu grande publico, mesmo este já tendo assistido a banda muitas e muitas vezes, nem tanto pelos nativos de Viveiro e adjacências mas pelo grande publico que vinha de fora. Pouca luz no palco mas muito peso nas caixas de som.

  Próxima parada Glassjaw: O quarteto americano pisou em solo espanhol para única apresentação após 10 anos de ausência e podemos perceber de cara que o Fugazi nunca esteve tão vivo. Após a passagem de Pianos Becomes the Teeths pelo festival, foi a vez de Glassjaw mostrar todo seu posthardcore e ritmos variados, quebrados, interrompidos por berros de seu vocalista que também tem uma performance única no palco. Abrindo com "Tip Your Bartender" de Worship and Tribute, seguiram com "Mu Empire" do mesmo álbum e até finalizarem com "Siberian Kiss" foram repassados doze capitulos em um show de uma hora que fechou a noite no palco Jagermeister.  
 E por falar em fechar a noite, no palco principal tivemos dois grandes nomes californianos, Suicidal Tendencies e Descendents. O primeiro é um velho conhecido para todos nós. O Suicidal fez, mais uma vez, um dos melhores shows do festival. Ainda que já não conte com a presença de Mike Clark na guitarra, uma figura que, ainda que não faça parte da formação original da banda, está na mesma há vinte e cinco anos e representa bem a imagem do Suicidal. Ainda assim e com o jovem Nico Santora em seu lugar e dando conta do recado abriram com "You Can't Bring me Down", "Ain't Gonna Take It" e "Institutionalized" em sequência, um inicio avassalador e que deixou a galera enlouquecida. Não satisfeitos colocaram as cartas na mesa com "War Inside My Head", "Freedumb" e "Subliminal" com um Mike Muir mais em forma do que nunca, correndo de um lado a outro e dando muito trabalho aos fotografos. Não acaba por aqui, após "Possessed to Skate" e "Cyco Vision" entra uma surpreendente "How I Will Laugh Tomorrow" numa previa para o grande finale com "Pledge Your Allegience" e duzentas pessoas no palco de hábito, o que não estava previsto era um "Memories of Tomorrow" embutida no meio antes dos gritos de encerramento de S.T.

 Já os Descendents...bem, fica até dificil comentar tal atuação após vê-los direto da barricada com um enorme sorriso que não saia do rosto. Há tempos não assistia um show em que naturalmente te coloca um smile na cara. Começar uma apresentação com "Everything Sucks" e com Milo debruçado no publico enlouquece qualquer um. Fato curioso foi que pisei no fio de microfone do lendário vocalista o que o deixou "sem" voz por alguns segundos. Milo mal havia se juntado aos companheiros de palco quando soaram os primeiros acordes de "Hope" jogando "Silly Girl" ao terceiro posto. Dai em diante foi só curtir ao show diretamente da barricada, ainda que não de frente mas numa posição privilegiada. Não muito depois "I'm the One" marcou presença e a galera acompanhou. E a introdução de baixo em "My Age" deixa claro de uma vez por todas que os Descendents, apesar de uma banda punk rock está longe do básico de três acordes, suas canções são complexas para tocar, que o diga as linhas de baixo de "Van". Apesar dos muitos kilos à mais, Bill deixa claro que ainda manda nas baquetas mas quem rouba a cena mesmo é o vocalista. Baixando no publico uma vez mais, distribuindo o energético Monster que patrocina o evento na fila do gargarejo até dar uma acalmada num tipo de teatro com "All-O-Gistics". Entre o setlist de vinte e oito músicas podemos destacar "Rotting Out", uma mais hardcore com "Coffe Mug", "Suburban Home" e "Kabuki Girl". Uma apresentação sem meias palavras e com muita diversão. Sonho realizado para muitos.
Para o terceiro e último dia de festival, chegamos justo para a apresentação do Skarhead. Mais uma banda com muita historia nas costas que se apresentou por meia hora. Nada que incomodasse aos integrantes que deixam claro que além de passar sua mensagem, querem diversão acima de tudo. Entre as mais celebradas pelo publico se encontra "Dogs of War" e "Kings of Crime" tendo o vocalista Ezec, mais conhecido como Danny Diablo com discursos de união entre uma e outra. E para abrir o dia no Jagermeister tivemos os australianos do Deez Nuts. O quarteto mandou bem e demonstrou que é bem mais rápido e pesado ao vivo do que em estúdio. Abrindo a apresentação com "Stay Truth" e "Damm Right". Sem pose de durões e o vocalista tem até um jeitão rapper que faz lembrar Freddy do Madball. Uma apresentação à altura de uma banda que vem crescendo no cenário mas que vai de degrau em degrau para não se complicar.
A tarde de Sábado recebia então mais uma banda do revival do metal dos oitenta. Angelus Apatrida é a nova sensação do metal espanhol. Provenientes da cidade de Albacete, o quarteto já desponta como o futuro grande nome do metal mundial. Com quatro discos na conta, sendo o primeiro considerado um dos melhores debutes do cenário espanhol em anos, com os últimos Clockwork (2010) e The Call lançado este ano dá a sensação que a banda busca a perfeição no estilo. Enquanto a banda repassava o som 15 minutos antes do horário marcado o publico já pedia o inicio da apresentação. Definitivamente não decepcionaram apesar de um setlist curto e um show de quase cinquenta minutos, neste tempo foi possível conferir temas como "You are Next" e "Blast Off". Atenção neste nome.

Em outro aguardado momento do publico metal, o The Black Dahlia Murder fez um pesadíssimo show, igualmente de cinquenta minutos. Gritos guturais ou rasgados, uma bateria rápida e insana e um vocalista que fisicamente lembra Barney do Napalm Death com uma atuação ao limite. Hora com cara de furioso para o público, hora interpretando uma das letras passeando pelo palco como Alice no país das Maravilhas. Para destacar somente uma das muitas boas porradas que escutamos deixamos à cargo de "What a Horrible Night to Have a Curse".
Ao final do Black Dhalia corremos para um reencontro no lado musical, pois o Good Riddance pisava no Resurrection com a bandeira de turnê de reunião após um hiato de anos. Comentava sobre um reencontro musical porque o Good Riddance foi uma das bandas que mais assisti entre os anos 2000 e 2002 numa larga visita que fiz ao Canadá. Mesmo com o já comentado hiato a banda soa perfeita musicalmente, na verdade dá a sensação de que nunca houve tal stop. Musica como "Shadows of Deafeat" e "Heresy, Hypocrisy, and Revenge" soaram como no disco. Igualmente podemos dizer com "Steps" e "Last Believer" com dedicatória a Tony Sly em que o vocalista Russ Rankin ficou visivelmente emocionado. Show impecável.

No mesmo palco e uma hora após o GR tivemos outro grande nome do festival no estilo punk rock, o Anti-Flag. Defendendo o bom disco The General Strike, lançado este ano, o quarteto mostrou mais uma vez em terras espanholas o porque vem sendo referencia no estilo nos últimos anos. Além do já considerado clássico "Die For the Government" e da levinha "Turncoat" chamaram o a galera com "Fuck Police Brutality" e "Broken Bones" do atual lançamento além de "The New Sound" ambas com refrões pegajosos. Destaque absoluto para o baixista Chris 2, sempre um show em cima do palco som seus memoráveis saltos.


 Já tínhamos o sabor de fim de festa quando os Dead Kennedys subiram no palco da lona para encerrar as atividades do palco Jagermeister. Particularmente sou um grande fã da banda e havia uma grande expectativa de assisti-los apesar de estar consciente que sem Jello Biafra o show não seria o mesmo. É sempre difícil substituir um vocalista, quanto mais um deste porte, um verdadeiro personagem do punk mundial. Mesmo assim, ter a Klaus Flouride, D.H. Peligro e East Bay Ray diante de seus olhos já seria o suficiente. Contando também que comparações com o passado seriam inevitáveis. É triste aceitar a decepção, num principio aceitei calado, achei que era impressão minha ou cisma com Ron "Skip" Greer ao tentar repassar a performance de palco de Biafra. Está aí um grande erro quando se substitui um frontmen. Quando sai uma voz e entra outra, com o tempo se aceita, agora ver a Greer tentando se expressar corporal e sarcasticamente com Jello é exagero. O pior é que não parou por aí, o próprio trio nos instrumentos deixou à desejar. Parecia faltar algo, um pouco mais de lenha para subir o fogo mesmo com clássicos como "Forward to Death" e "Police Truck" como os batedores diante do carro oficial dos Kennedys. Um "Let's Lynch the Landlord", "Kill the Poor" e "MP3 Get Off the Air" (versão modernizada do MTV Get Off...) como seguranças laterais e "Nazi Punks Fuck Off", "California Uber Alles" e "Holiday in Cambodia" como guarda costas. Mesmo assim os snipers conseguiram acertar o alvo e matar os Kennedys. Até mesmo um rapaz de 23 anos que estava a meu lado comentava que aquilo era um engano. Por outro lado fico feliz por haver estado tão perto dos integrantes de uma banda que tanto gosto e vê-los tocando musicas que fizeram parte da minha formação. Talvez esta não tenha sido uma noite brilhante, um daqueles dias que as coisas não dão muito certo, quem sabe numa próxima oportunidade?

 Restava por assistir At The Gates e Hatebreed. Os suecos do At The Gates, sinónimo de agressividade, raiva, técnica e presição como mesmo define a pagina do festival, deixou claro que são os reis do death metal melódico. A voz rasgada de de Lindberg fez vibrar o público metal que se reuniu para celebrar o encerramento do evento. Músicas como "Slaughter of the Soul" e "Cold" fizeram estremecer até as balizas do campo de futebol guardadas em algum canto do evento.
Para finalizar o festival a banda favorita do patrocinador, Hatebreed. Tenho uma relação de amor e ódio com esta. Suas musicas são bem compostas, letras com frases marcantes, etc. Mas não consigo associar a imagem de seus integrantes com a musica e ritmo imposto pelos mesmos. Tenho sempre a impressão de estar diante de um Hardcore pré-fabricado. Jasta com suas frases feitas, as mesmas que utiliza a cada show, as que aparecem em seus DVDs como, "quando eu falar Hate vocês gritam Breed", ou mesmo "quero ver suas mãos pro alto", entre outros além do estilo professor com de aeróbica com saltos combinados com palmas, tenho a sensação de estar assistindo uma atuação ensaiada, com um roteiro decorado. Uma banda onde os próprios integrantes assumem que trabalham 24 horas por dia, 1 no palco e 23 fora dele, com imagem, patrocínio, produtos, etc. Sinceramente prefiro bandas que saem dos becos, sem nenhuma expectativa e tem como objetivo serem reconhecidas e respeitadas. Desabafo e opiniões particulares à parte, o show, musicalmente falando, foi bom porém curto. A banda saiu com mais de dez minutos de atraso do horário previsto mas encerrou com "I Will Be Heard" no horário previsto e sem direito ao bis, ainda que o publico pedisse mais. Enquanto estiveram no palco demonstraram todo seu potencial com "Proven", "To The Threshold" "Become a Fuse", e claro "Destroy Everything" e "Never Let it Die". No tempo em que permaneceram no palco provaram, apesar de tudo, que tecnicamente estão superiores as demais bandas e seu lado mainstream de momento é imbativel. Ou seja, num apanhado geral, o saldo é positivo e um show a ser visto seja num festival ou numa sala menor, a intensidade é a mesma já que em geral o roteiro não muda.

Fim de festa, hora de descansar por umas quatro horas antes de passar o dia viajando de transporte em transporte até chegar em home sweet home e confessar que verdadeiramente foi um risco fazer tudo isso, já que fisicamente as condições eram complicadas com uma prótese de Aorta costurada no peito. Fui levado pelo desejo e sonho de assistir lendas do punk rock. Alguém já leu algo de Pablo Neruda? "Morre lentamente quem não viaja, quem não lê ou mesmo não acha graça em si mesmo. Quem se torna escravo do hábito. Quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não permite, pelo menos uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos..." Se pudesse contribuir diria que "Morre lentamente quem não tem uma paixão na vida, quem acredita que esta paixão não muda o mundo mas que te trás uma felicidade extrema, mesmo sabendo que o retorno é simples sorriso..."
Fui.
Enviado por Mauricio Melo

Confira fotos desse show, por Mauricio Melo:










Rancid em Barcelona 30/07/2012 - Sala Razzmatazz - Barcelona/Espanha

Chega a ser irônico, senão triste, saber que quanto mais tecnologia e acesso ao alcance da juventude, menos funciona a coisa. Novas tecnologias revolucionaram o mundo, ajudaram a muitos e afundaram outros tantos e a festa de vigésimo aniversario da banda californiana Rancid teve que mudar de recinto devido a baixa procura por ingressos.

Não que tenha sido um desastre, mas estava programada para o Sant Jordi Club, um lugar bem maior que a tradicional sala Razzmatazz. Por falar nela, a Razzmatazz é a antiga sala Zeleste onde foi gravado Loco Live dos Ramones e o video oficial do Sepultura na turnê do disco Arise, Under Siege, entre outros.

A expectativa era grande porque os californianos visitavam Barcelona pela primeira vez como atração principal nestes vinte anos de carreira. Em sua única visita até então, tinha sido como banda de abertura para o Rage Against the Machine no ano de 1996, na época lançando o aclamado "…and Out Come The Wolves".

Por que a queixa da tecnologia se é com ela que trabalhamos atualmente? Porque há pouco mais de uma semana o Blink 182 visitou a cidade condal e tocou exatamente no mesmo recinto (enorme) anteriormente reservado ao Rancid. Raciocinando um pouco parece absurdo que um pop punk besteirol tenha cacife para tanto, mas sim que tem, e isso vem acontecendo há tempos como por exemplo ter o Bad Religion abrindo para o Rise Against, uma piada. Talvez a enxurrada de bandas e música ao acesso de todos tenha sido fundamental para a falta de fidelidade dentro da cena.

Por outro lado, a única coisa que podemos reclamar da Razzmatazz na noite de ontem foi a gratuita sauna que recebemos durante o show. À parte disto tivemos uma acústica perfeita e uma iluminação melhor ainda, como particularmente nunca tinha visto na Razz, como chamamos por aqui. Não poderia ser para menos já que o setlist oferecido pela banda foi digna de uma celebração. Ver direto da barricada como Tim Armstrong entrava com sua descascada guitarra puxando "Radio Havana" deixando louco todos os skinheads e mods que estavam no local com suas camisas polo Fred Perry e suas botas Dr. Martens, seguindo com "Roots Radicals" e na sequência com a inesperada "The Way I Feel" ambas do já citado ."..and out Come The Wolves" é algo único. Do mesmo álbum escutamos de Matt Freeman os primeiros acordes de "Journey to the end of the East Bay", vale citar que Freeman é sem sombra de dúvidas um dos melhores baixistas da cena. Saindo da barricada em direção ao segundo andar da sala foi possível ver como a pista se tornava um pandemónio com "Maxwell Murder" e Freeman confirmando seu posto com aquele solo no meio da música, quer dizer, um deles já que durante toda a apresentação foram vários.
Por falar em tocar algo, é impressionante como Armstrong verdadeiramente não toca nada, perambula pelo palco, faz estilo com seu chapeuzinho, roça as cordas da guitarra, ensaia um solinho aqui outro ali, mas...e daí? O cara é a parte fundamental da banda e suas cordas vocais são marcantes em muitas das canções como em "Red Hot Moon" e "Ruby Soho" e claro, não podemos deixar de lado a figura de Lars Frederiksen. Cabeça "rapada", camisa com a estampa Skinhead e muito suor. Para solucionar o calor muita água e cerveja voando como definitivamente deve ser um show deste porte. O público esteve à altura e convenceu já que em muitas ocasiões é completamente mudo em Barcelona.

A banda permaneceu no palco por uma hora e meia e neste tempo a atracão sonora foi à base de ska com "I Wanna Riot" e "Hooligans", punk com "It's Quite Alright" e punk rock com "Salvation". Sem detalhar que ainda tivemos "Fall Back Down", "Time Bomb", "Old Friend" e muito mais. Como escrevi anteriormente, uma verdadeira celebração de uma já considerada lenda do punk/rock/ska. Comparem com quem quiserem mas a verdade é que Rancid só existe um.

Promotor: Cap-Cap
Enviado por Mauricio Melo

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The Pains Of Being Pure At Heart Em Barcelona 13/01/2012 - Sala Razzmatazz 2 - Barcelona/Espanha

Abrimos o ano de 2012 com a apresentação do The Pains of Being Pure at Heart. Não foi na primeira, nem na segunda e tampouco na terceira tentativa que conseguimos conferir tal apresentação, porém na quarta passagem do grupo pela cidade condal. Em 2009 durante o festival San Miguel Primavera Sound o quinteto nova iorquino apresentava até então seu primeiro e auto-intitulado álbum.  Naquela ocasião acabamos deixando escapar a apresentação por estar diante do Tokyo Sex Destruction, grupo espanhol que é comparado ao melhor momento do The International Noise Conspiracy e até mesmo MC5. A apresentação dos espanhóis era tão boa que esquecemos que os americanos do Pains estavam logo ao lado. Após esta o grupo passou por Barcelona duas vezes mais e não conseguimos "invadir" dito show.

Desta vez não houve recusa e nosso pedido foi aceito. Apesar de ser uma Sexta-feira 13 o público não temeu o azar, já que por aqui se celebra a Terça-feira 13. Isso mesmo, espanhol é assim, não comemora Natal mas celebra dia de Reis como se fosse, e a sexta é terça-feira 13.

Num princípio parecia até que não daria público mas pouco antes da apresentação a sala já dava sinais de cheia. Liderados por Kip Berman e sua Fender Jaguar o quinteto abre a apresentação com a música título de seu segundo disco, "Belong", lançado ano passado e considerado um dos melhores do ano no gênero e responsável por colocar o grupo em definitivo como o da "moda", para toda uma geração.

Não só a guitarra de Kip é a mesma como a atuação no palco se parece com a de Oliver Ackermann, também vocalista e guitarrista de uma banda nova iorquina chamada A Place to Bury Strangers. Seu trejeito shoegazer de distorcer os riffs chama bastante atenção enquanto os outros integrantes mais se concentram em tocar. Kip também se comunicou e bem, ainda que de maneira bastante básica, em castelhano enquanto a tecladista Peggy Wang se derretia à Barelona em inglês mesmo. Na sequência tivemos "This Love is Fucking Right!" e "Heart in your Heartbreak" que podemos considerar um verdadeiro hit ao olharmos a reação do público diante desta. Por momentos me senti num verdadeiro show dos anos 80, aquele som característico, com a bateria marcada e seca, um baixo também marcado e guitarrinhas distorcidas além do teclado.  Um público com suas camisas xadrez, calças Levi's slim fit e óculos Ray Ban.  A sensação aumentou quando "The Tenure Itch" foi tocada.

Apesar das músicas serem parecidas entre si, o grupo tem a fórmula e a medida exata de não se tornar cansativo e isso fica nítido em "Heaven's Gonna Happen Now" e "Come on Saturday". A essas alturas já podíamos ver a camisa de Berman ensopada de suor por sua dedicação no palco. Até mesmo a música que leva no nome da banda e que pertence a um EP (também auto-intitulado) foi tocada no final depois de "My Terrible Friend".

Para o bis a banda reservou "Contender" que foi executada por um Kip Berman em solitário além de "Say No to Love" e "Strange", a mesma que encerra do disco Belong e que tem mesmo cara de fim de festa. Um excelente show para um bom público com aspecto de Primavera Sound, já podemos ir aquecendo.
Enviado por Mauricio Melo

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Festival Cruilla Barcelona 2012 c/ Stooges, Gogol Bordello, Specials etc 07/07/2012 - Parc Del Forum - Barcelona/Espanha

PRIMEIRO DIA - 06/07/2012

No último fim de semana e primeiro do mês de Julho, tivemos a oportunidade de, pela primeira vez em cinco edições, participar do festival Cruilla Barcelona, realizado no mesmo local de muitos outros, o Parc del Fòrum, entre eles o também coberto por nós, Primavera Sound.

Um festival jovem no que podemos dizer tradição mas que já leva em seu curriculo nomes como Ben Harper, Public Enemy, Love of Lesbian, Asian Dub Foundation, Jack Johnson, entre outros. E este ano não foi diferente com atrações como Iggy & The Stooges, Cypress Hill, M.I.A., The Specials, Sharon Jones e Arnaldo Antunes junto a Edgard Scandurra e Toumani Diabaté.

Podemos destacar também a honestidade do público junto ao festival. Um evento mais compacto que outros, sem grandes dimensões ou excesso de palcos e que fazem com que poucas apresentações coincidam, dando liberdade do mesmo assistir a quase tudo sem grandes sacrificios. Contando com preços bem acessíveis para os dias do evento e muita gente local, com poucos estrangeiros, sem as tradicionais etiquetas musicais e pessoais e livre do fashion que tanto assola estes eventos.

Já na primeira hora da sexta-feira tivemos num pequeno palco chamado Cases de la Música o verdadeiro rock and roll de Los Tiki Phantoms. Uma verdadeira orgía surf-music com personagens criados e representados por seus integrantes, algo como após passar dois séculos enterrados embaixo de um vulcão vêem a luz do mundo e saem em turnê uns esqueletos com instrumentos em punho. A banda participou pelo segundo ano consecutivo do festival e desta vez apresentando seu novo álbum, Mueven el Esqueleto. Pelo horário e dia até que o público compareceu para participar da festa, fazer um trenzinho com o baixista e ainda com que uma fã passeasse pelo público com um colchão inflável. Apesar dos títulos das músicas serem em sua grande maioria em espanhol como "Ay Caramba", "La Conga", "Fuego", "El Pulpo" e "Bala de Plata", suas canções são intrumentais, o que de verdade aumenta a diversão.

Para nossa primeira visita internacional da noite tivemos no palco Estrella Damm,Iggy & The Stooges e mais uma vez foi de tirar o chapéu. Já tinhamos acompanhado de perto seu show ano passado no Hellfest mas em 2012 parece ter sido mais intenso já que o palco se situava num tipo de arena e a galera estava mais proxima, menos dispersa podemos dizer.

Abrir a noite, que na verdade ainda era dia apesar do relógio marcar 21:00 com "Raw Power" é de estremesser tudo e fazer os fãs mais assíduos e de cabelos grizalhos mostrarem que a galera old school é quem comanda a festa no momento. Não satisfeitos, um "Search and Destroy" junto a um Iggy que de "pop" nunca teve nada. O "rapaz" continua pisando forte no acelerador, um verdadeiro show. Iggy, com suas tipicas caretas e cusparadas ainda praticou um stage dive já na metade do show, o que o deixou com a boca sangrando. Nada que incomodasse.

O desfile de clássicos parecia interminável som "Shake Appeal", "Fun House", "No Fun" e o cover de "Louie Louie". Faltou mesmo "1969" para completar a festa mas vê-lo interpretando "1970", apenas um ano de diferença, dançando junto a parte de seus fãs que ele mesmo convida ao palco já é o suficiente.

Pouco depois conferimos a cantora Nneka, considerada o segredo mais bem guardado da música negra atual e comparada a Lauryn Hill e seu hip-hop soul. Nascida na Nigeria e residente na Alemanha, a moça capricha nos seus discursos ativistas entre uma canção e outra, entre elas "My Home", todo um hit.

Para finalizar nossa participação neste primeiro dia tivemos Gogol Bordello e seu "gipsy punk", grupo que mistura o punk com a música Balcânica. Um espetáculo frenético e de grande aceitação por parte do público, até mesmo por ser um grupo multicultural, algo bem Barcelona por sinal. A mesma se apresentou no Rock in Rio Madrid no dia seguinte. Está aí outra banda que seus shows são mais atrativos que suas versões de estúdio e músicas como "Start Wearing Purple" e "Ultimate" encaixam perfeitamente junto a "Wonderlust King" e a audiência da noite.

 Com a mesma dada como ganha e no caminho das placas que indicavam a saída fui atraído por fantásticas vozes africanas, o casal de cegos Amadou & Miriam, provenientes de Mali. Os célebres já tiveram colaborações musicais de Mano Chao e Damon Albarn em algumas de suas canções. Acho que não fui o único atraído por estas cordas vocais.

Tão bonita quanto suas músicas são suas histórias de vida, vale à pena conferir.



  SEGUNDO DIA - 07/07/2012  Abrimos o segundo dia de festival no mesmo palco e horário do dia anterior, sob o mesmo sol e algo de calor mas desta vez para assistir a dois ícones da música brasileira junto a outro da africana.

Arnaldo Antunes & Edgard Scandurra com a participação de Toumani Diabaté (ou vice-versa), conhecido por tocar um instrumento chamado Kora e que o fez vencedor de dois Grammys de melhor álbum de música tradicional, apresentaram ao Cruilla seu trabalho A Curva da Cintura que, segundo as palavras de Diabaté demonstra que a música é acima de tudo uma linguagem universal.  O africano também tinha um motivo extra para a felicidade, seu filho compartilha o palco tocando o mesmo intrumento.  A apresentação começou bem serena e com um público atento ao que ocorria. Scandurra e Toumani mais calados e Antunes bem comunicativo, principalmente num momento em que o público, apesar de bem no inicio, começava a dar sinais de tédio com aquele bate-papo de barzinho enquanto a banda está no palco fazendo uma trilha sonora de suas histórias. Nada que nossos protagonistas não saibam lidar após anos de experiência. Talvez pelo nosso idioma não ser tão popular assim a ponto de não despertar interesse e o sentimento de muitos que ali estavam com seu cigarro e cervejinha nas mãos ao menos para entender o que a grave voz de Arnaldo Antunes traduzia em belas palavras. Quando o trio e sua banda engrenou uma fusão mais rock com Scandurra caprichando nos solos e Antunes em sua performance de palco o público finalmente se rendeu e compreendeu que diante deles existia uma história musical que desconhecem mas que despertou interesse.

Resumindo, Arnaldo, Scandurra e Diabaté levaram com maestria um público curioso que quase se deixa levar por um momentâneo desinteresse, algo que somente artistas como estes, únicos e inconfundíveis conseguem produzir.  Ainda que o publico tenha se animado e mudado de atitude diante do cover "Elisa" de Serge Gainsbourg, teve certa de decepção ao descobrir que estava traduzido para o português. Algo como provar do próprio remédio num país onde a rainha Elisabeth se chama Isabel pelo simples fato de que tudo é traduzido, incluindo nomes.

  Com o tempo justo conferimos no palco principal Linton Kwesi Johnson, considerado o Leonard Choen da música jamaicana e uma das figuras chave da evolução do reggae nos últimos anos. O rapaz de 60 anos, com seu chapeuzinho estilo samba de raiz deu uma aula de sociologia em forma de música com seus discursos ao melhor estilo Panteras Negras (do qual foi membro), tentando conscientizar o público sobre o que verdadeiramente protestou e protesta sendo imigrante jamaicano fincado em Londres desde os anos 60. Para um sábado de verão e uma brisa diante do mediterrâneo, melhor lugar não há para colocar o cérebro em funcionamento.

E já que o reggae, soul, dub caminhavam juntos pelo festival levados por nomes de histórias próprias, porque não estar diante da apresentação daqueles que são considerados os pais do ska? The Specials deram fim a uma inatividade de anos para há três voltarem a ensaiar e participar de festivais no Japão, Austrália e Europa, incluindo o show de encerramento das Olimpíadas de Londres junto a New Order e Blur. Neste meio tempo passaram por Barcelona para tocar clássicos como "Do the Dog" e "(Dawning Of A) New Era". Num show pra lá de alto nível, demonstraram estar em forma e deixaram o clima pra lá de positivo.

Na sequência pairava no ar a primeira estrela do festival, M.I.A.. Digo estrela não pelo que representa para a música atual mas sim pelo que pensa ser. Apesar de Iggy ter solicitado que os fotógrafos assinassem um contrato contra a publicação de sua imagem de forma indevida (calendários, posters, etc) e do Cypress Hill demorar a responder se os mesmos (fotógrafos) teriam direito de trabalhar à vontade, foi a senhorita M.I.A. que mais torrou a paciência com suas exigências. Primeiro não queria os fotógrafos profissionais, depois recuou e permitiu. Porém para os fãs do gargarejo, acostumados com suas fotos via telefone, foi totalmente proibida a captação de qualquer tipo de imagem, com direito a bronca dos seguranças. Talvez o fato de ter gravado com Madonna e toda badalação à seu entorno sobre suas misturas de hip hop com nosso funk carioca tenha queimado os neurônios de Mathangi Maya, seu verdadeiro nome. Para complicar um pouco mais as coisas, os primeiros 15 minutos de show quem esteve no palco enchendo linguiça foi a DJ e para quem pagou para assisti-la, além de um curto show por se tratar de festival, sua apresentação deu a sensação de participação, daquelas em que o artista dá uma palhinha. Particularmente não tenho nada contra a M.I.A. e até estive presente num bom show que ofereceu em Barcelona há uns dois anos, onde o lado político de suas músicas era mais destacado. Não que após "Paper Planes" e "Bucky Done Gun" o público tenha reclamado mas ao subir para o show da Sharon Jones & Dap Kings e ver a re-encarnação de James Brown de saia deu aquela sensação da brincadeira que fizeram na internet após o fraco (ou louco) show da Claudia Leite no Rock in Rio ano passado, "senta ali no cantinho e aprende como se faz!". A senhora Jones trouxe felicidade e beleza para a noite, bom demais.

Para finalizar nossa participação e a de muitos outros, os californianos do Cypress Hill nos visitaram mais uma vez. Com um setlist muito parecido ao apresentado aqui em 2010 e ainda com um show calcado em seu último lançamento, Rise Up. Abriram com o mesmo sampler e a todo gás com "Get 'Em Up". B-Real em solitário num primeiro momento deixando Sean Dog cobrar protagonismo na segunda parte da música e sua entrada triunfal. Diversão tinha nome e estava no palco. "When the Sh.. Goes Down" deixa o público em êxtase com direito a B-Real e seus gestos marijuaneros. Durante uma hora e meia a dupla deixou claro que ainda tem muita lenha e folha para queimar e o público acompanhou sem desperdícios. Algumas músicas cantadas em espanhol como foi "Yo Quiero Fumar (I Wanna Get High)" outras em inglês como "Hits From The Bong" e seu tradicional cachimbo no palco para fazer um pouco de fumaça e até uma pareceria com Snoop Dogg na música "Vato", além de uma referência ao Public Enemy com um trecho de Bring The Noise deixando a galera com um largo sorriso.

  O grande finale ficou por conta de "(Rap) Superstar". É engraçado ver uma banda que estourou para o mundo com "Insane in the Brain" conseguir livrar esta música de uma etiqueta e não deixa-los marcado como "aquela banda daquela música tal" mas cair na armadilha com "(Rap) Superstar", nada grave. No meio tempo ainda tivemos "Cock the Hammer", "Rise Up", "Tequila Sunrise" e "Dr. Greenthumb" entre muitos e muitos outros já clássicos do hip-hop. Incansáveis e alto nível mais uma vez.

Agora me diz: Com toda a história do Cypress, tanto musical quanto a dura realidade das ruas de Los Angeles, respeitado entre os amantes do rock, do rap e de tudo...porque não existe uma "marra" e exigências na dupla? Artista para exigir tem que ter banca mas normalmente é assim, como mostram pouco no seu oficio, de algum lugar tem que chamar atenção.

Esta aí uma boa pedida aos viajantes para o próximo ano, o Cruilla demostra sinceridade e pés no chão.

Até a próxima.
Enviado por Mauricio Melo

Confira fotos desse show, por Mauricio Melo:



Helmet @ Barcelona 2012

Como é bom voltar no tempo! O homem vive tentando se manter jovem, voltar ao passado e continuar curtindo aquele momento, desejando que este não se acabe. Mas acredito que a máquina do tempo foi inventada há anos, ou melhor dizendo, há muitos séculos. Esta máquina? A música.

Quem de nós, que gostamos de Helmet e vivemos todas as descobertas dos anos 90 não consegue sentir, ou pelo menos lembrar da mesma sensação quando se escuta um disco como "Nevermind" do Nirvana e "Meantime" da banda em questão? Pois é isso, a pura máquina do tempo. Lembro bem quando o Nirvana apresentou ao mundo o disco que verdadeiramente mudou o rumo da música e que este chegou à nossas mãos, foi foda! Porque desde os mais radicais quanto os mais "melódicos" gostaram do que ouviram, e eu particularmente fui um deles.

E o que tem a ver o disco do Nirvana com os 20 anos de celebração de "Meantime"? Tudo, é claro! Dois anos antes o mesmo Helmet havia apresentado ao mundo seu debut, "Strap it On", e ninguém nem ouviu falar nisto. Um ano após este lançamento e com o boom do "grunge", bandas como as de Seattle massacravam as rádios e televisões da época. Todos viraram roqueiro e o mundo redescobriu as guitarras, três acordes e vozes gritadas ao microfone. Nesta onda toda quem acabou tendo uma oportunidade foi Page Hamilton e seus rapazes que repetiram a fórmula do disco de estréia e apresentaram uma demo a Interscope Records, que apesar de um selo pequeno estava diretamente ligada a uma multi-nacional, numa época em que todos queriam explorar ao máximo novas bandas que poderiam mudar (novamente) o rumo da música.

"Meantime" não mudou o rumo mas conseguiu vender um milhão de cópias e até hoje é considerado um dos melhores discos da década de noventa. A banda estava no lugar e momento adequado quando gravou o disco. A mesma seqüência de música dois anos antes ou uma década mais tarde e não estaríamos aqui escrevendo sobre a turnê de vinte anos deste lançamento por questões matemáticas e porque obviamente não teria o êxito e impacto que teve. Segundo o próprio Page, o disco foi gravado no mesmo estúdio de "Strap It On" e que realmente não existe uma grande diferença entre ambos, apenas mais estrutura como Andy Wallace na mixagem após uma produção de Steve Albini, o que pode ter deixado o álbum um pouco mais polido e accessível para a demanda da época. 

Apesar de Hamilton ser o único integrante daquela formação, a banda atual não deixa a desejar e de perto fomos conferir junto a outros 200 fãs o que teriam a nos oferecer. É realmente estranho ver a celebração de duas décadas de um álbum que vendeu mais de um milhão de cópias, como foi dito anteriormente, numa sala tão pequena. Por outro lado sabemos que os que ali estiveram realmente gostam do Helmet deixando os demais numa posição de que curtiram aquela onda e nada mais.

Celebração à parte, quem abriu o set da noite foi "Wilma's Rainbow" do álbum Betty. Como mesmo explicou Hamilton, as primeiras músicas serviram para aquecer o público antes da sequência aniversariante e que foi tocada de trás pra frente com relação ao disco. Além da já citada música de abertura também tivemos "So Long" de um trabalho mais recente e "Renovation" de Aftertaste.

Quando se deu inicio ao momento esperado com "Role Model" o público foi ao delírio. Pogos, empurrões e até stage-dive foram vistos na sala 2 do Apolo. Page Hamilton de olhos fechados para a interpretação inicial de "FBLA II", baixo pesadão, batera firme e a guitarra de Page reconhecível num único acorde, lembrei no ato que chamávamos o Helmet de rolo compressor quando escutávamos o disco há duas décadas. Todos sabemos que o líder do grupo tem uma técnica incomparável com as seis cordas mas vê-lo a dois palmos de distância foi de tirar o fôlego. A mesma sensação tive no momento de "He feels Bad", "Turned Out", "Unsung", "Give It", além das que faltaram citar.

Claro que o grande motivo em tocar o álbum na ordem contrária se deve ao desejo de esgotar o público com "Ironhead" e "In the Meantime" em reta final. A estratégia foi boa mas o público pediu mais e recebeu com "Milquetoast" em que o baixo fez estremecer a sala, "Exactly What You Want" e "Distracted".

Em definitivo, os anos 90 foi um dos mais criativos com relação à este tipo de música. Como este ficou para trás há mais de década, só nos resta celebra-los com festas deste tipo e torcer para que num futuro, uma nova década possa ter o mesmo impacto.

Ironheaaaad!!!

Promotor deste show: To Be Confirmed Produccions
Enviado por Mauricio Melo

Confira fotos desse show, por Mauricio Melo:

Noel Gallagher @ Barcelona 2012

O óbvio se confirmou na noite do último domingo 4 de Março de 2012. Noel Gallagher visitou a cidade condal e reivindicou seu verdadeiro posto de líder e compositor de uma das bandas mais importantes da música nos últimos vinte anos, Oasis.

Quando, no final da década passada após uma briga em que Liam supostamente quebrou uma das guitarras de Noel minutos antes de uma apresentação em Paris no festival Rock en Seine e que foi a gota d'água para o fim da banda dos irmãos Gallegher, poucos puderam acreditar que esse fim fosse verídico. Porém, quando "quebra guitarras" anunciou seu novo grupo, clipe e disco poucos meses após a nota oficial que concretizou o fim do Oasis, acreditamos que sim, era um fim e um novo início para ambos. Liam como sempre foi esperto, o Beady Eye lançou um disco de rock, básico, com os mesmos membros de sua antiga banda, na verdade um único cambio que foi a mudança de guitarrista, o principal. Ao escutar o novo "Oasis" ficou aquela sensação de que faltava aquele acabamento num bruto diamante apesar de todos considerarmos um bom disco. A banda ganhou as capas de revistas, fez vários shows em diferentes continentes, etc. Mas ao final todos se perguntavam: Onde está Noel? Será que não terá vida após sua banda? Impossível! Já que todos sabíamos que a diferença entre os irmãos era grande. Um com muita postura, atitude e aquela imagem, necessária, arrogante. Digo necessária porque o mundo do rock tem que possuir todas as personalidades para poder seguir adiante, existe o louco, o drogado, os simpáticos, os gênios e os arrogantes, entre outros. O outro possui quase que as mesmas habilidades do irmão, porém com algo mais, o poder da criatividade.

O porque do texto ter começado com o óbvio se confirmou se encaixa na criatividade de Noel. Liam sabia que se lançasse um disco após seu irmão, poderia ser abertamente e, porque não, duramente criticado. Saiu na frente e conquistou seu território sabendo que Noel viria logo atrás. Antes mesmo de chegar em Barcelona os rumores já corriam solto dizendo que os dois agradavam em sua proposta mas que um brilhava mais intenso que outro e não necessitamos dizer quem. A dimensão do novo projeto de Noel começou a ganhar mais notoriedade quando a MTV britânica exibiu seu primeiro video clipe que já se notava algo muito maior do que imaginávamos até que fosse revelado o que realmente era, um curta-metragem com direito a três músicas do mesmo, foi de tirar o chapéu. 

Talvez por tudo isso descrito acima e muito mais é que ao passar na porta da sala Razzmatazz na tarde de domingo (uma da tarde para ser mais exato) já existia uma fila bastante considerável para um show que começaria as nove e numa sala tamanho médio como a que é. Mais tarde, prestes a abertura oficial das portas por volta das 19:30 a mesma fila dava volta no quarteirão, algo atípico para o local. 


A apresentação começou com uma versão sampleada de "If I had a Gun..." exibindo num telão ao fundo o nome de sua banda. Noel soube dar desde o princípio o que seus fãs queriam, músicas do Oasis. Abriu com "(It's Good) To Be Free" que até então é uma sobra de estúdio incluida no disco "Masterplan" e que para quem sabe ler, qualquer pingo é letra, o título diz tudo. 

Na sequência "Mucky Fingers" também do Oasis. E não demorou para que músicas de seu primeiro álbum solo começassem a soar pelos quatro cantos do recinto. A verdade é que seus novos acordes parecem velhos conhecidos, seu estilo se exalta e o público canta junto. Não foi difícil de ver camisas do Manchester City e bandeiras da inglaterra sendo exibidas ao protagonista no momento de "Everybody's on the Run" e "If I had a Gun..." oficialmente tocada e a apresentação já pode ser considerada como uma das melhores do ano e aproveitando para dedicar aos amigos de sua cidade natal, Manchester, situados ao fundo da sala uma versão totalmente acústica de "Supersonic". Para levantar o público após suas versões acústicas tivemos "Whatever" e "Little by Little" antes de "The Importance of Being Idle" sem contar que seu disco em solitário foi totalmente tocado. 

Assim mesmo da maneira descrita e escrita, entre uma canção e outra de seu lançamento atual, músicas do Oasis, algo que seu irmão não inclui em suas apresentações deixando claro que sua antiga banda é coisa do passado. Noel faz questão de exibi-las e com orgulho, orgulho de quem as criou e que agora mais do que nunca, e não sabemos por quanto tempo, sente a necessidade de mostrar quem realmente manda nas seis cordas, aproveitando a deixa para finalizar com "Don't Look Back in Anger" e um Noel Gallagher bem diferente daquela imagem de bad boy criada há alguns anos. O vimos bem tranquilo, relaxado e até certo ponto comunicativo com o público. Um show que vale à pena.

O que não vale à pena é se estressar com a Live Nation Espanha que em quase seis anos na vivendo aqui jamais respondeu um de meus pedidos de imprensa, peço desculpas a quem estiver lendo isto, o site nada tem a ver com minha queixa, é pessoal. Talvez possamos aprender com eles, de uma maneira ou de outra. Quero dizer que ou nos tornamos uma mentalidade limitada e quando realizarmos eventos no Brasil eliminamos a imprensa internacional do mapa ou evoluimos e abrimos as portas para que a notícia de um evento ganhe destaque internacional. Particularmente prefiro a segunda ainda que a Live Nation Espanha prefira a primeira. Com eles e muitos outros é assim, não importa a dimensão de sua cobertura o que importa é fazer o jabá pra eles, ou seja, basta ser um blogueiro pé-rapado local para estar selecionado à seus eventos e não importa que você tenha algum reconhecimento ou repercussão em outro país, sendo assim sou sempre ignorado. Talvez meu currículo seja ruim, meu histórico muito mal e perco lugar para os blogueiros locais...